Mesmo que você não saiba quem ou o que, escolher amar exige mais coragem do que temos consciência. A escolha traz a possibilidade de experiências maravilhosas, mas também te lança a uma vulnerabilidade incontrolável, imposta pelo destino. E amar nós mesmos? Você terá que multiplicar essa coragem por três, porque se encarar nem sempre é fácil. Foi sobre tudo isso que refleti assistindo ao filme “O Amor de Sua Vida”, disponível no Prime Video.

Prepare o lencinho, o coração e a mente. Uma das melhores surpresas dos últimos tempos. Não li nada sobre, não vi indicações, mas lá estava ele, em primeiro lugar, o mais assistido da semana.

O texto contém spoiler, mas nada que estrague a experiência.

O filme acompanha o encontro de Maya (Margaret Qualley) e Charlie (Gabriel Basso) em um início de romance pra lá de fofo. Eles se casam e, claro, tudo parece perfeito... perfeito até demais. O longa te deixa em alerta, esperando que algo ruim aconteça. Dito e feito.

São menos de 30 minutos de felicidade. O restante é um desafio emocional para a protagonista e para quem está assistindo.

Margaret Qualley, a mesma de “A Substância” e da minissérie “Maid” (Netflix), está perfeita na pele de Maya, que enfrenta luto e culpa. As expressões faciais em cada cena demonstram ternura, desespero e até a ausência de sentido diante de alguns momentos da vida. Como continuar a viver quando se perde alguém que você ama? Como se enxergar depois de uma perda? No caso de Maya, ela opta pelo isolamento e pela fuga. Inclusive, a diretora Rachel Morrison também mostra competência ao transmitir as emoções mais profundas em todas as cenas, até nas mais silenciosas.

Quem assina o roteiro é Julia Cox, que escreveu outro longa extremamente delicado, o “Nyad”, sobre as preparações física e emocional da atleta que pretende nadar de Cuba até a Flórida, estrelado por Annette Bening e Jodie Foster. Com essas duas obras no currículo, a roteirista mostra o que podemos esperar para os seus futuros trabalhos: sensibilidade.

Por falar em sensibilidade, uma das cenas mais lindas, já na reta final, é o reencontro de Maya com a sogra, vivida por Catherine Keener. Repare em cada olhar, em cada fala. O diálogo perfeito para a tentativa de cicatrizar feridas ainda abertas.

Eu me preparei para o momento em que o filme escorregasse na cafonice, mas isso não acontece. Ao assistirmos à saga de Maya viajando pelo mundo e para dentro de si, acompanhamos sons e cores em sintonia, sem mais nem menos, na dose ideal para conseguirmos sentir exatamente o que ela sente, para questionar “o que seria perder o amor da vida?” ou “o que fazer para não perder a si própria ainda em vida?”.

Maya teve a coragem de amar Charlie, mesmo sabendo das incertezas que um vínculo tão forte traz, mas, no caminho, a protagonista percebe que o “seu grande amor” precisa ser ela mesma. Podemos ter a coragem de escolher amar alguém, mas coragem maior é enfrentar a nós mesmos, voltar a nos amar e recomeçar.