Recordista! Esse é o principal marketing da comédia nacional "Minha Melhor Amiga". Estrelada por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o filme quebrou o recorde de maior circuito de estreia da história do audiovisual brasileiro. O longa chegou a 1.531 salas no primeiro dia.

As duas, separadamente, já são responsáveis por outros sucessos de bilheteria, como “Os Homens São de Marte...e é pra lá que eu vou”, “Minha Vida em Marte” e as sequências de “De Pernas pro Ar”. A questão é: bilheteria é sinônimo de qualidade? Não!

Mesmo gostando dos trabalhos de Mônica Martelli, preciso soltar a minha opinião impopular: saí decepcionada do cinema. Digo impopular porque a sala estava tomada por gargalhadas o tempo todo e talvez todos, até agora, tenham amado, menos eu.

Quem assina a direção é Susana Garcia, irmã de Mônica Martelli e responsável por outros filmes da atriz e por “Minha Mãe é uma Peça 3”, de Paulo Gustavo. O roteiro também é de Susana, com a roteirista Patrícia Leme.

“Minha Melhor Amiga” traz duas amigas de uma vida inteira, Júlia e Clara, que viajam juntas a Portugal para visitar suas filhas adolescentes, que estão em intercâmbio. A personagem de Mônica, a Júlia, está solteira e em busca de novas aventuras amorosas, já Clara está presa em um casamento claramente falido, com perdão do trocadilho. E isso é o máximo de história que você terá nesse filme. Desculpe o spoiler, o restante é uma coleção de esquetes de humor sobre as peripécias que a dupla vive durante a viagem. Algumas cenas são, sim, engraçadíssimas, mas não saem disso: trechos de comédia. O roteiro é uma salada de situações, preguiçoso e superficial, que tenta abordar temas como liberdade feminina, maturidade e maternidade e não se aprofunda em nada. Se você acompanha as duas atrizes, sabe que a maioria das histórias colocadas ali faz parte do repertório real da vida delas e já foram contadas inúmeras vezes em programas de TV. Por que não utilizar as experiências reais em um roteiro mais criativo, que traga algum frescor ao público? Parece ter sido mais fácil apostar que a popularidade de ambas já lotaria o cinema mesmo. Para que criar algo mais profundo, então?

Entre enredo fraco e interpretações medianas, “Minha Melhor Amiga” parece apenas a tentativa de fazer um filme, na maioria das cenas. Os trechos mais engraçados, você pode perceber, são erros de gravação utilizados como parte da história. O tom da risada e as expressões mudam nesses momentos, o que deixa nítido que tudo poderia ser melhor, principalmente o texto. Algumas falas parecem monólogos de autoajuda, rasas, que não saem do senso comum. Se a ideia era trazer densidade, não conseguiram.

Há muito tempo, a amizade é o que mais me encanta na relação humana, mas precisa ser bem abordada. Essa é uma relação complexa, não existe protocolo, você permanece porque quer, porque ama e por ter a sorte de encontrar pessoas tão dispostas quanto você. Júlia e Clara parecem ser dispostas, vivem os melhores e piores momentos juntas, mas o filme te entrega apenas discurso sobre isso; não tem conflito real.

Parafraseando Fernanda, de “Minha Vida em Marte”, eu escolho me apaixonar pelos meus amigos todos os dias, mas não escolho ver esse sentimento de maneira superficial nas telas. Arte, para mim, é quando algo fica em você, mas “Minha Melhor Amiga” parece só buscar risos aleatórios. Então, se a sua intenção é sentir e refletir, passe longe.