O que te fascina em um filme? O cenário mais bonito? O casamento de cena + trilha sonora? Eu nunca consegui responder a essa pergunta de um jeito genérico; cada obra me impacta de uma maneira, pode ser a música, a edição ou até mesmo ir assistir algo e perceber que é totalmente diferente do que eu imaginava.

Filme slasher, por exemplo, é um dos meus favoritos. Como não amar esse subgênero que traz um assassino perseguindo pobres vítimas até matá-las de um jeito completamente tosco? Não contém ironias, realmente amo o estilo e fui correndo ao cinema quando Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte entrou em cartaz. Saí encantada com toda a excentricidade vista na telona; mesmo já sabendo o que me esperava, fui surpreendida.

Quem olhar para o pôster ou mesmo ler a sinopse, pode ficar tentado a assistir com a convicção de ver um filme de terror, mas não vai conseguir isso.

Vamos lá, Acampamento Miasma conta a história de Kris, uma jovem diretora de cinema, vivida por Hannah Einbinder (Hacks), que acaba de ganhar prêmio no festival de Sundance e, por isso, teve as portas de Hollywood abertas para as suas ideias. Muito fã de terror slasher, ela decide fazer o reboot de um clássico fictício: Acampamento Miasma.

O filme dentro do filme foi um sucesso nos anos de 1980, tornando-se uma franquia com várias sequências, mas guarda um mistério: apesar do sucesso do primeiro, a protagonista, Billy Presley, nunca quis retornar ao papel nas continuações, além de ter encerrado a sua carreira de atriz depois de alcançar o estrelato.

Billy é vivida por Gillian Anderson, a Scully, de Arquivo X, e a Jean Milburn, de Sex Education.

Kris marca um encontro com a antiga atriz para saber mais sobre a produção original. Ao chegar ao local, descobre que Billy vive na locação do primeiro filme, o que torna tudo ainda mais sinistro.

Sobre o filme ser considerado terror, na verdade, aqui ele é uma espécie de homenagem satírica ao gênero, mostrando o lado tosco e exagerado. O magnetismo das personagens deixa mais fácil para o espectador entender que o longa não é sobre um slasher clássico; todo aquele cenário é apenas um pano de fundo para questões muito maiores.

Ao testemunharmos, quase como voyeurs, as duas, juntas, reassistindo ao filme original, percebemos as críticas sobre homofobia, machismo, transfobia e todas as questões que eram vistas no passado como normais e hoje já são inaceitáveis.

Em um primeiro momento, até pensamos que Billy, com gestos e olhares tão peculiares, pode ter enlouquecido depois de viver tantos anos ali, isolada, mas, conforme os minutos do longa passam, ela se mostra cada vez mais lúcida, segura de quem é e de como sua autodescoberta tem a ver com o trabalho no filme. Com todo esse autoconhecimento, ela se empenha em conduzir Kris também para esse caminho de descobertas.

Muito além de reflexões batidas, o filme, em sua essência, busca mergulhar na sexualidade das protagonistas e suas dificuldades e bloqueios, como não chegar ao orgasmo.

A direção de Jane Schoenbrun, a mesma de Eu Vi o Brilho da TV, dá todo o brilhantismo para o longa, afastando-o de qualquer cafonice. As cenas de Kris e Billy são um misto de suspense, sensualidade e estética perfeita. Aliás, a diretora é fanática por Arquivo X, o que explica a escalação de Gillian Anderson; como não dar um papel grandioso para uma ídola, não é mesmo?

Além do meu amor incondicional pela Gillian e, agora, também fã de Hannah Einbinder, outra coisa que me deixou vidrada na tela foi toda a direção de arte, desde os cenários até a sequência que mostra produtos colecionáveis, como bonecos, discos e cartazes da franquia do Acampamento Miasma. Tudo foi tão bem feito e apurado, que nos faz entender logo de cara o tamanho do sucesso daquilo.

O filme foi bem recebido em todos os festivais de que participou até agora, com destaque para Cannes, onde venceu o prêmio Queer Palm 2026.

Seja pela identificação do universo queer com o longa, pela dupla de atrizes talentosas ou até pelas ironias sobre slashers, o filme já é considerado um sucesso. O que ainda precisa ser dito é que Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte é para quem se permite viver uma experiência diferenciada no audiovisual. E, gostando ou não, é impossível ficar indiferente ao longa de Jane Schoenbrun.