Homero, poeta da Grécia Antiga, escreveu duas das obras mais famosas e adaptadas para o cinema: Ilíada e Odisseia. A primeira traz detalhes, não comprovados, sobre a Guerra de Troia. Já a segunda funciona como continuação e conta o longo retorno de Odisseu (ou Ulisses) para a sua terra, a ilha grega de Ítaca, após vencer a guerra.

Odisseu, vivido por Matt Damon, precisa atravessar mares dominados por deuses, criaturas mitológicas, monstros e ainda resistir ao canto sedutor das sereias. Tudo com a força de quem deseja reencontrar a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland).

Se já não bastassem tantos obstáculos, Odisseu ainda vive a culpa de toda a destruição causada pela guerra, a principal mensagem da obra. Esse conflito parece ser o que mais atraiu Nolan para a adaptação do épico, já que o diretor adora trazer o arrependimento como mote dos seus protagonistas masculinos. Repare em Dom Cobb (A Origem) e J. Robert Oppenheimer (Oppenheimer).

Mas por que assistir a um filme de quase 3h sobre uma história que a maioria já conhece?

Porque Christopher Nolan é um dos cineastas modernos que mais atrai público. Suas obras precisam, necessariamente, ser vistas na telona; nada de telinha para ele.

Dito isso, ir assistir a A Odisseia é uma experiência cinematográfica para quem aprecia toda a tecnologia disponível para a sétima arte. Nolan é mestre em ousar e trazer técnicas nunca usadas para ter certeza de que você não saia igual da sessão. Dessa vez, duas inovações: encapsular a câmera IMAX para evitar que o barulho que ela emite durante a filmagem atrapalhe a concentração dos atores. A partir disso, resolveu outro problema: o espaço que ela ocupa encapsulada em cena. A ideia de Nolan e do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema foi colocar os atores para atuarem em frente a espelhos em cenas que exigissem mais proximidade entre os personagens, já que o tamanho da câmera não caberia entre a dupla. A técnica permitiu interpretações ainda mais viscerais. Só que isso foi suficiente para passar emoção? Não, mas o espelho não é o problema.

É fato que a imponência do filme e os efeitos especiais, principalmente nas cenas com o Ciclope Polifemo e o ataque dos Lestrigões, são de brilhar os olhos, você fica imerso naquele universo. Porém, um universo frio, sem cor... literalmente. Nolan opta por uma paleta mais cinza e pastel para a maioria das cenas. Apesar de ser uma escolha acertada em grande parte dos takes, a opção reflete também o seu estilo de direção: muito visual, pouco coração.

Até com um elenco incrível, o filme parece faltar algo, parece sempre estar a um passo de chegar ao clímax, mas não consegue.

Mesmo assim, vale ressaltar que, de todos os atores grandiosos, o destaque vai para o trabalho sensível de Elliot Page, como o soldado Sínon, que, em poucas cenas, prova que o filme tinha todo o potencial e história para ser mais emocional. E, claro, Zendaya, como Atena, que sempre me traz a sensação de privilégio por viver no mesmo século e testemunhar o trabalho dessa atriz.

Outro ponto forte é Samantha Morton, conhecida por personagens dos longas A Baleia e Minority Report – A Nova Lei. Ela impressiona com a interpretação de Circe, mulher que o grupo de Odisseu encontra em uma das paradas. Isso é tudo que direi, sem spoiler.

A Odisseia merece ser contemplado, mas é impossível não afirmar que Nolan esteve com a faca e o queijo na mão para fazer um épico mágico, mas optou por um épico técnico e, mais uma vez, ficou apenas nisso.

Texto publicado no Jornal Ribeirão, no dia 13 de agosto de 2026.